terça-feira, 8 de junho de 2021

Recomendações para a alimentação de lactentes e pré-escolares na Região Europeia da Organização Mundial da Saúde

 Prof. Dr. Ulysses Fagundes Neto

A renomada revista JPGN de novembro de 2020, publicou um importante artigo de autoria de Koletzko B. e cols., intitulado “National Recommendations for Infant and Young Child Feeding in the World Health Organization European Region” que a seguir passo a abordar em seus aspectos de maior relevância.

Introdução

A introdução de alimentos sólidos na nutrição da criança trata-se de um momento crucial para o seu desenvolvimento. A OMS e a UNICEF recomendam a utilização do aleitamento natural exclusivo (ANE) durante os primeiros 6 meses de vida, seguida da introdução de alimentos complementares (ACs) em associação com o aleitamento natural até os 2 anos de idade, e podendo mesmo avançar além deste período da vida. Revisões sistemáticas têm demostrado inúmeros benefícios de curto e longo prazo associados ao aleitamento natural, tais como, menor risco de morte, proteção contra gastroenterite, otite média e infecções respiratórias, além disso, menores probabilidades de sobrepeso e obesidade, diabete tipo 2 e hipertensão arterial em fase posterior da vida. Por todos esses motivos, promover, proteger e dar apoio ao aleitamento natural, trata-se de importante prioridade de saúde pública.

A alimentação complementar adequada é extremamente importante devido ao rápido ritmo de crescimento e desenvolvimento dos lactentes, e, ao mesmo tempo, a elevada suscetibilidade para deficiências e/ou excessos nutricionais, em virtude da ocorrência das frequentes mudanças do mercado dietético que expõe os lactentes a novos alimentos, sabores e texturas. Por esta razão, o período de introdução dos ACs requer uma atenção particular quanto a fornecer uma nutrição adequada. As práticas recomendadas incluem a introdução dos ACs por volta dos 6 meses de idade, a frequência de suficientes refeições e tamanho das porções, diversificação dietética, textura apropriada dos alimentos, segurança quanto a preparação, armazenamento e higiene. É da maior importância fornecer fontes de nutrientes essenciais, tais como ferro e zinco, na introdução dos ACs. Este fato é especialmente importante para lactentes em ANE cujos depósitos de ferro, passam a estar diminuídos entre 4 e 6 meses de vida, e mais tarde, entre os pré-escolares, porque o ferro continua a ser essencial para o desenvolvimento sadio do cérebro.

Há uma vasta literatura a respeito do aleitamento natural e do aleitamento artificial, mas pouca atenção tem sido dedicada ao período de introdução dos ACs, e a preocupação com o momento da sua introdução bem como a sua capacidade nutricional, e a segurança para lactentes e pré-escolares. Informações a respeito das atuais recomendações pelas Organizações europeias estão em falta.  O presente estudo tem por objetivo fornecer estas recomendações nutricionais para lactentes e pré-escolares na região europeia.

Métodos

Um questionário com 32 perguntas foi encaminhado para os departamentos de saúde das nações componentes da comunidade europeia envolvendo a nutrição das crianças.

Resultados

Pediatras de 48 dentre os 53 estados membros (91%) da região europeia, providenciaram respostas cujos principais resultados estão mostrados na Tabela 1. 


Tabela 1

As existências de recomendações nacionais

Dentre os países participantes a maioria (45/48 países; 94%) relataram haver recomendações nacionais a respeito da alimentação de lactentes e pré-escolares. Apenas 3 países (3/53; 6%) relataram não ter recomendações deste tópico.

Na maioria dos países que possuem recomendações nacionais a respeito da nutrição dos lactentes e pré-escolares, estas foram relatadas como sendo emitidas ou endossadas pelos respectivos governos (41/45; 91%). Em 4 países (4/45; 9%) que não possuem endosso formal do governo, os grupos profissionais são responsáveis pelas recomendações nacionalmente utilizadas.

Informações a respeito da promoção e apoio ao aleitamento natural e aos substitutos do leite materno

Em 42 dos 45 países (93%) que apresentam recomendações nacionais promovem e apoiam o ANE nos primeiros 6 meses de vida, enquanto 3 países (7%) promovem o ANE por 4 meses. 29 dos 45 países (64%) promovem e apoiam o ANE até os 2 anos de idade e inclusive além desta faixa etária, enquanto 9 países (20%) promovem a continuidade do ANE até 1 ano de idade.

Idade de introdução de ACs

As informações a respeito das recomendações da idade de introdução do AC mostraram-se disponível em 34 dos 45 países que possuem recomendações nacionais. A idade ideal para a introdução da AC foi recomendada ser aos 6 meses em 25/34 países (74%); 4 meses em 6 países (18%) e 5 meses 3 países (9%) (Figura 1). 


Figura 1

Recomendações de líquidos além de água

As recomendações a respeito de líquidos existem em 44/45 países, sendo que em 21 dos 44 países (48%) recomendam o ANE até os seis meses de idade, enquanto 23/44 países (52%) recomendam AN associado com outros líquidos associados, nesse período. As recomendações para oferecer sucos aumentam com a idade da mesma forma que a inclusão de chás que variam de 6 meses a 2 anos de idade.

Grupos dos primeiros alimentos

A principal recomendação para os grupos dos primeiros alimentos são vegetais em 35 dos 41 países (85%), frutas 26 (63%) e cereais 25 países (61%) (Figura 2). Poucos países também recomendam a introdução de carne (14 países; 34%), arroz (10 países; 24%), peixe (6 países; 15%) , ovo (3 países; 7%), laticínios (3 países; 7%) , pão (2 países; 5%) e macarrão (1 países; 1%) como primeiro grupo de alimentos.


Figura 2

Idade de introdução de carne e alimentos ricos em ferro

44 países relataram informações a respeito das recomendações da idade de introdução de carne e outros alimentos cujas fontes são ricas em ferro, embora 1 país não tenha especificado a idade e, portanto, não foi incluído nesta análise. 26 de 43 países (63%) recomendam a introdução de proteína e fontes ricas em ferro aos 6 meses, enquanto 4 países (9%), recomendam a introdução mais precocemente.

Conclusão

Na maioria dos países os governos endossam as recomendações para os latentes e pré-escolares, e participam da implementação destas recomendações, o que é altamente recomendável porque esta atitude aumenta as possibilidades da sua efetiva implementação. A maioria dos países da região europeia recomenda o ANE nos primeiros 6 meses de vida e, consequentemente, a introdução de ACs a partir dos 6 meses em diante. As recomendações dos 93% dos países afirmam que promovem e aprovam o ANE durante os 6 primeiros meses de vida.  Por outro lado, 82% dos países também recomendam que lactentes que não recebem ANE, não devem iniciar ACs antes dos 4 meses de idade. Deve-se ressaltar a importância do fornecimento de fontes ricas em ferro com a introdução dos ACs, posto que a deficiência de ferro continua a ser a deficiência mais frequente de micronutrientes na infância, a qual acarreta anemia e pode também causar efeitos adversos no desenvolvimento do cérebro com potencial sequelas ao longo da vida.

Meus comentários

O presente artigo demonstra claramente a inexistência de uniformidade de orientações nutricionais no primeiro ano de vida nos países da comunidade europeia. Há nitidamente uma grande heterogeneidade de propostas de orientação nutricional que trazem grandes confusões de condutas. No Brasil, o Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Pediatria, em 2018, publicou as orientações a respeito da alimentação do lactente levando em consideração os seguintes momentos da vida do lactente: aleitamento natural exclusivo até o sexto mês, leite materno até o segundo ano de vida com a introdução de alimentos complementares a partir do sexto mês. A proposta de introdução dos alimentos complementares deve incluir almoço e jantar, e a refeição deve conter cereais ou tubérculos, proteína vegetal ou leguminosas (feijão, lentilha, soja, grão de bico), proteína animal (todos os tipos de carnes, vísceras e ovo) e hortaliças, sem adição de sal. Ao meu ver as propostas de orientação nutricional brasileira  parecem totalmente apropriadas, principalmente pela promoção do aleitamento natural exclusivo até o sexto mês de vida prolongando-se até o segundo ano. Está claro que este prolongamento pode ser ainda mais ousado, dependendo do desejo e das possibilidades maternas ou mesmo encurtado considerando-se que o trabalho materno poderá ser um fator limitante para a prática do aleitamento natural, a partir de uma determinada idade após o sexto mês de vida.

Referências Bibliográficas

·         Koletzco B e cols.- JPGN 2020;71:672-78

·         Prell C e cols. -DAI 2016;113:435-44

·         Koletzco B e cols. Ann Ver Nutr 2019;39:21-44

quinta-feira, 27 de maio de 2021

A Vertiginosa Expansão da UNIFESP: 2003-08 (Parte 6)

 

Reitor: Ulysses Fagundes Neto


A consolidação de um grande desafio que foi conquistada com muita perseverança


O processo de expansão na graduação na UNIFESP começou, efetivamente, em 2004. A partir dos dados quantitativos dos documentos analisados, observou-se um aumento percentual de 500% no número de campi, 834% no número de vagas de ingresso e 980% no número de cursos. Além desse aumento quantitativo, a UNIFESP também diversificou sua área de atuação com a inclusão dos cursos de ciências humanas, sociais aplicadas e exatas. Considerou-se que o processo de expansão na Universidade, no período entre 2003 e 2012, pode ser considerado como único entre as IFES no Brasil, em relação ao que ocorreu no ensino superior público federal no país. Sua singularidade se dá tanto pelo potencial transformador dessa expansão como pelo crescimento do número de campi, cursos e matrículas da graduação, por meio de implementação de propostas pedagógicas inovadoras, bem como da diversificação de suas áreas de atuação, em relação aos parâmetros nacionais. Observou-se o caráter transformador que a expansão trouxe para a UNIFESP que, de uma universidade da área da saúde, passou para uma universidade plena.

Em 2003, a UNIFESP ainda se mantinha como uma universidade temática na área da saúde com importante papel no cenário acadêmico nacional e internacional. Possuía um único campus, situado na Vila Clementino, com cinco cursos de graduação: Medicina (1933), Enfermagem (1939), Ciências Biomédicas (1966), Fonoaudiologia (1968) e Tecnologia Oftálmica (1970), todos ligados à Escola Paulista de Medicina, com um total de 1.296 estudantes. (UNIFESP, Relatório de Gestão de 2003, novembro de 2003).

À época, apresentava um expressivo quadro de estudantes de pós-graduação stricto sensu com um total de 480 matriculados no Mestrado Profissional; de 1.366 no Mestrado Acadêmico; e de 1.206 no Doutorado. Existiam 11 programas de pós-graduação em nível de Mestrado Profissional; 30, em nível de Mestrado Acadêmico; e 37, em nível de Doutorado. (UNIFESP, Relatório de Gestão de 2003, novembro de 2003).

Na pós-graduação lato sensu, existiam 146 cursos (139 cursos de Especialização e 7 cursos de Aperfeiçoamento) com um total de 1.834 alunos matriculados (1.775 de Especialização e 59 em Aperfeiçoamento). Na Residência Médica, o número de alunos, matriculados nos 41 programas credenciados pela Comissão Nacional de Residência Médica, era de 454. (UNIFESP, Relatório de Gestão de 2003, novembro de 2003).

No final do ano de 2007 a UNIFESP estava assim configurada, conforme demonstra o Quadro 1:

 



Em síntese: no período de 2003 a 2007, a UNIFESP aumentou de 1 para 5 campi e contava com 273 vagas distribuídas em 5 cursos de graduação em 2004. Em 2005, o número de vagas aumentou em 10%, devido ao Programa de Ações Afirmativas, passando para 300. Em 2006, com a expansão para o campus Baixada Santista, a UNIFESP passou a ter 10 cursos e a ofertar 490 vagas, o que representou um aumento de 63%. Em 2007, com a expansão para os campi de Diadema, Guarulhos e São José dos Campos, a UNIFESP passou a ofertar 1.150 vagas, distribuídas em 23 cursos, o que significou um aumento de 135%. (UNIFESP, Balanço do Primeiro ano do REUNI da UNIFESP, de 31 de outubro de 2009). Este crescimento está demonstrado no Gráfico 9:

 


No período analisado, ocorreu um crescimento no número dos cursos de graduação na instituição: de 5 cursos em 2003, para 23, em 2007, num total de 18 cursos a mais. O Gráfico 10 mostra que, nos anos de 2003, 2004, o número de cursos se manteve, porém, de 2005 para 2006, o crescimento foi de 5 novos cursos e de 2006 para 2007 foi de 13.

 



O Gráfico 11 demonstra o crescimento de 1.016 novas matrículas nos cursos de graduação, na primeira fase da expansão: de 1.296 matrículas em 2003, para 2.312, em 2007. Os dados mostraram um crescimento mais significativo de matrículas com o início de novos campi e cursos na UNIFESP: de 2005 para 2006 foram 217 matrículas e de 2006 para 2007, foram 776.

 



 

A partir desse quadro situacional, o processo de expansão da UNIFESP foi significativo em relação à graduação, à pós-graduação (lato e stricto sensu), à pesquisa e à extensão.

 

 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Com a devida consideração e respeito, apropriando-me do texto de Maria Bernadete, encerro este trabalho, que como exposto no preâmbulo, já deveria ter sido escrito há alguns anos. Aproveito este espaço para prestar meu preito de gratidão à Maria Bernadete, porque a partir da leitura do seu brilhante trabalho de Tese de Mestrado Profissional, despertou em mim a chama que se fazia necessária, para que eu me sentisse devidamente estimulado a reviver um passado heroico da minha vida como dirigente universitário e do qual muito me orgulho.   

“O processo de expansão da UNIFESP, ocorrido no período compreendido entre 2003 e 2008, pode ser considerado como único entre as IFES brasileiras, se for levado em conta o que ocorreu no ensino superior público federal no país. Em relação aos parâmetros nacionais, a sua singularidade se dá tanto pelo potencial transformador dessa expansão quanto pelo crescimento do número de campi, dos cursos e das matrículas de graduação.

A UNIFESP se tornou a primeira universidade brasileira especializada em saúde. Na ocasião de sua criação em 1994, abrigava cinco cursos de graduação em um único campus. Era uma universidade pública que tinha, por objetivo, desenvolver, em nível de excelência, atividades inter-relacionadas de ensino, de pesquisa e extensão, com ênfase no campo específico das ciências da saúde.

Em 2003, a UNIFESP, ainda como uma universidade temática da saúde, decidiu pelo aumento do número de vagas de graduação e se engajou no Programa de Expansão das Universidades Federais. Efetivamente, a etapa inicial desse processo de expansão começou em 2004, ano em que foi proposta, no CONSU, a criação do campus Baixada Santista e da Unidade de Santo Amaro. A expansão estava voltada, até então, para aquelas áreas do conhecimento que dialogassem com os cursos e atividades em funcionamento no campo das ciências da saúde, por entender ser essa a expertise da instituição.

Com os novos campi, a contar do ano de 2007, a UNIFESP caminhou em direção às humanidades e a outras áreas, as quais, até aquele momento, não estavam presentes na instituição. Todavia, era necessário que essas novas áreas tivessem relação com as ciências da saúde. Começou, igualmente, a oferta de cursos noturnos, em cumprimento a uma das metas estabelecidas pelo governo federal.

A partir desse mesmo ano, o processo de expansão da UNIFESP foi dinâmico e significativo. As discussões no CONSU, órgão máximo da instituição na tomada de decisão, acerca da criação e implantação de novos campi (Baixada Santista, Diadema, Guarulhos, São José dos Campos e Osasco), bem como de novas áreas do conhecimento e cursos, foram marcadas por reuniões bastante dinâmicas, tornando-se assunto recorrente em todas as instâncias superiores da universidade.

Vale salientar que esse movimento de criação de novos campi e cursos ocorreu de maneira peculiar e acompanhou o processo de expansão das IFES, proposto pelo governo federal. Nesse sentido, observa-se que a criação e a implantação do campus Baixada Santista foram discutidas de modo mais intenso, no decorrer dos anos de 2004 e 2005. Esse foi o primeiro campus fora da sede principal, o que levou à necessidade de mudança de estatuto.

Enquanto o campus Baixada Santista caminhava para se concretizar, academicamente, surgiram novas possibilidades para a criação de novos campi nas cidades de Diadema, Guarulhos e São José dos Campos. Dessa vez, a discussão se deu de modo mais rápido nos conselhos superiores, devido à rapidez do processo geral de expansão das IFES e da necessidade de tomadas de decisão, no momento histórico pelo qual passava o país.

Para que se entenda a dimensão da expansão da UNIFESP na primeira fase, compreendida entre 2003 e 2007, faz-se necessária a comparação do seu crescimento em relação ao crescimento das demais universidades federais. A UNIFESP teve um crescimento de 400% no número de campi, enquanto, no Brasil, o crescimento total de campi nas universidades federais foi de 53%. O número de vagas de graduação aumentou em 321% na UNIFESP e 53% em nível nacional, nas IFES. O aumento do número de cursos da UNIFESP foi de 360% e, do total das universidades federais, foi de 28%.

Numa perspectiva regional, o crescimento do número de campus da UNIFESP na primeira fase da expansão correspondeu a 20% do total de campus criados em toda a região sudeste (aumento de 1 para 5 campi).

Observa-se que a UNIFESP se empenhou em consolidar seus campi e cursos por meio de implementação de propostas pedagógicas inovadoras, bem como da diversificação de suas áreas de atuação. Assim, aumentou sua área de conhecimento, das ciências da saúde para as ciências humanas, sociais aplicadas e exatas.

No cenário da expansão no Brasil, é importante salientar a relevância da UNIFESP como uma das universidades que mais cresceu, pois, além de ampliar o número de campi, de vagas e de cursos, a instituição também diversificou sua área de atuação na graduação.

Apesar do ritmo intenso da expansão, considera-se que esta proporcionou à UNIFESP a oportunidade da interiorização e da ampliação do seu compromisso social, como uma universidade pública e, socialmente, referenciada. Além de expandir, consideravelmente, o número de vagas e a possibilidade de escolha de diferentes áreas profissionais, a universidade implantou o ensino noturno, tão necessário para a sociedade.

Observa-se, claramente, o caráter transformador que a expansão trouxe para a UNIFESP que, saiu de uma universidade da área da saúde para uma universidade plena”.

Em conclusão, posso afirmar sem receio de cometer qualquer equívoco, que a implantação e a consolidação do projeto de expansão foram a maior marca da minha gestão. Devo ressaltar que este foi um trabalho de equipe, um grupo coeso da mais alta qualificação profissional, determinado em promover uma mudança de paradigma da UNIFESP. Também devo assinalar que tudo o que foi feito em termos da expansão, uma verdadeira revolução na nossa estrutura universitária, teria sido impossível de ser concretizada, se não tivéssemos contado com o firme apoio dos membros do Conselho Universitário, mesmo havendo, em determinados momentos, algumas poucas vozes dissonantes (Figuras 80-81-82-83).

  



Figuras 80-81: Cerimônia de posse de 11 dos 31 novos Professores Titulares no maior concurso realizado na história da Escola Paulista de Medicina durante o quatriênio 2003-7.

 


Figura 82: A honra e o orgulho de ter tido a ventura de haver sido Reitor da Universidade Federal de São Paulo.


Figura 83: O reconhecimento e o agradecimento que tanto me encheram de alegria e emoção.

terça-feira, 25 de maio de 2021

A Vertiginosa Expansão da UNIFESP: 2003-08 (Parte 5)

Reitor: Ulysses Fagundes Neto


DISCURSO DE RECONDUÇÃO - 1° de agosto de 2007




Figuras 69-70: Cerimônia oficial de posse da recondução à reitoria da UNIFESP na presença do ministro da Educação9 Fernando Haddad.



Figura 71: Momento da assinatura da posse oficial como reitor da UNIFESP.


Figura 72: Carla filha de Luciana, Luciana, eu e minha filha Walkyria.


Figura 73: Diretores da SPDM Samuel Goihman, José Roberto Ferraro, Ulysses Fagundes e Carlos Alberto Garcia Oliva presentes à cerimônia de posse.


Figura 74: O cumprimento do ministro da Educação Fernando Haddad com quem sempre mantive uma relação extremamente harmoniosa e cooperativa.

Minhas palavras iniciais são de agradecimento a toda nossa comunidade, composta por docentes, servidores e funcionários, estudantes de graduação, estudantes de pós-graduação sentido amplo e restrito (mestrado e doutorado) e médicos residentes, que compuseram o colégio eleitoral e que nos sufragou com 86% dos votos. Entendo que este percentual de apoio reflete uma clara demonstração de aprovação à nossa gestão, o que muito honra nossa equipe de trabalho, a qual ao longo destes últimos 4 anos de intensas batalhas se empenhou de corpo e alma, em prol da preservação da excelência da nossa querida UNIFESP.

Em segundo lugar, mas não menos importante desejo consignar meu preito de gratidão aos membros do nosso Conselho Universitário que, com grande ousadia e firme vontade política, decidiu por unanimidade e posterior aclamação, aceitar o desafio de mudar para sempre a história da nossa universidade. Deixamos definitivamente de ser a querida Escolinha, para nos transformarmos numa pujante Universidade, a qual ao incorporar novas áreas do conhecimento passa a trilhar os mais diversos e fascinantes caminhos da universalidade dos campos do saber, mas mantendo preservado o tradicional selo de excelência de qualidade conquistado ao longo dos tempos. Este passo decisivo e corajoso nos guindará, estou seguro, em breve futuro, ao topo das mais prestigiosas universidades internacionais, posto que estamos expandindo nossas fronteiras na produção do conhecimento, o que nos torna, assim, uma universidade plena. Mais uma vez, portanto, passamos a ser motivo de justificado orgulho do povo paulista a serviço do Brasil, ao mesmo tempo em que contribuímos de forma significativa para a melhoria da qualidade de vida do ser humano. Isto posto, considero que os 93% dos votos que recebi dos membros do nosso Conselho Universitário para esta nova gestão que agora se inicia, na verdade não são apenas meus e desta excepcional equipe que me acompanha para mais uma árdua e honrosa jornada, mas sim são absolutamente compartilhados com todos vocês, porque juntos enfrentamos todas as agruras que se apresentaram nestes 4 anos passados e juntos construímos com muito labor esta nova face da UNIFESP. Constituímo-nos em verdadeiros agentes de transformação de uma antiga e acomodada situação que já perdurava por décadas para enfrentarmos com o espírito renovado uma nova e promissora realidade. Portanto, desejo deixar explicitado, neste momento, a toda nossa comunidade e a todos nossos convidados este mérito extraordinário do nosso Conselho Universitário pelo seu alto sentido de engajamento nas boas causas do mundo acadêmico em benefício da sociedade.

Um agradecimento muito especial ao nosso corpo docente que soube entender e apoiou as duras medidas iniciais que foram tomadas, sérias e duradouras, porém necessárias para o equacionamento dos problemas internos existentes. A compreensão de que eram ações que teriam efeito negativo temporário e o crédito de confiança que nos foi depositado tornou-se de fundamental importância para que obtivéssemos o êxito final alcançado. Desejo também agradecer profundamente nossos servidores e funcionários, parceiros essenciais, pelo esforço e dedicação extraordinários para o engrandecimento da nossa instituição.

Aos nossos estudantes desejo felicitá-los pela forma brilhante com que representam a UNIFESP quer seja no campo acadêmico quer seja nas disputas esportivas universitárias, onde temos obtido vitórias maiúsculas. Felicito-os também pela maneira absolutamente civilizada de reivindicar aquilo que lhes parece de direito, sempre dispostos ao diálogo franco e transparente. Sua intensa participação nas causas pertinentes à vida universitária com o entusiasmo próprio da juventude e a visão crítica do mundo são essenciais para o engrandecimento e o fortalecimento das instituições democráticas. O desejo e a ânsia de querer viver em uma sociedade solidária e justa é altamente salutar, e o jovem traz embutido em seu coração e em sua mente o germe irrefreável da transformação da sociedade. Nossos estudantes são nossos bens de maior valia e como tal merecem toda nossa atenção, dedicação e carinho. Neles está depositado o futuro da nação, e que este futuro venha com urgência e que nos traga uma sociedade com igualdade de oportunidades, com justa distribuição de renda, que seja desprovido de iniquidades sociais, sem violência, e aonde o exercício pleno da cidadania não seja uma mera promessa vazia de palanque de políticos demagogos e sim uma conquista real e definitiva para toda a população.

Há 4 anos no meu discurso de posse afirmei que era chegado o momento de inverter o lema positivista da nossa bandeira. Deveríamos colocar ordem no nosso progresso e que uma vez atingido este objetivo mais progresso viria. Com efeito, foi o que se verificou na prática, pois neste período crescemos em um ritmo espetacular, jamais igualado em nossos quase 75 anos de história. Aproveitamos os fatores conjunturais favoráveis do país e lideramos o processo de expansão das universidades federais. A abertura do campus da Baixada Santista serviu de modelo para este ambicioso e ousado projeto de mudança de paradigma. Logo a seguir vieram os campi de Diadema, Guarulhos, e São José dos Campos. Desde nossa fundação em 1933 até 1970 havíamos criado 5 cursos de graduação, sendo todos na área da saúde. Atualmente passamos a oferecer 19 cursos ampliando nosso campo de atuação abrangendo também as ciências exatas, as ciências biológicas e as humanidades. Deixamos assim de ter um rótulo de especificidade exclusivista a “Universidade da Saúde” para, sem perder o reconhecimento de excelência neste campo do saber, nos tornamos uma Universidade plena, multicêntrica e polivalente. Com o processo de expansão veio também o crescimento financeiro, tanto para o campus de São Paulo que teve seu orçamento de custeio e capital dobrados, graças à compreensão por parte do ministro da Educação Fernando Haddad das nossas imperiosas necessidades de sobrevivência, bem como o natural financiamento de investimento, capital e custeio para os campi recém-criados. Concomitantemente houve um aumento extraordinário de nossa área física. Em São Paulo, o então prefeito José Serra doou um terreno de cerca de 20.000 m2 em Santo Amaro onde desenvolveremos uma série de projetos sociais ligados à Pró Reitoria de Extensão. Em Santos a CODESP nos doou 2 terrenos de 5.500 m2 cada para a construção da nossa sede definitiva, cuja obra, aliás, já está em pleno andamento. Mais ainda, graças ao apoio do prefeito João Carlos Papa o governo do estado nos doou o prédio da Hospedaria dos Imigrantes, uma edificação monumental de 20.000 m2 de área construída, obra do século XIX e que necessita ser restaurada para ser devidamente incorporada ao nosso patrimônio. Na Praia Grande o prefeito Mourão entusiasmado com a implantação do Instituto das Ciências do Mar nos doou uma área de mangue de preservação ambiental de 1.300.000 m2. Em Diadema o prefeito José de Fillipi nos doou uma área também de preservação ambiental e de manancial, pois está à beira da represa Billings, de cerca de 400.000 m2 para a construção da nossa sede definitiva e, ainda este mês, também irá nos doar o imóvel que presentemente serve como sede provisória que foi totalmente reformado e adequado às nossas necessidades de ensino, e que possui cerca de 30.000 m2. Em Guarulhos o prefeito Elói Pietá nos doou uma área de 19.000 m2 constituída por imóvel de 11.000 m2 de salas de aula já construído além de um magnífico teatro com capacidade aproximada para 800 pessoas. Por outro lado, nosso crescimento não se limitou ao processo de expansão para outros campi, aqui na Vila Clementino inúmeras benfeitorias também foram realizadas. Indiscutivelmente a de maior visibilidade é o prédio de pesquisa 2, cuja obra está em processo de finalização e ainda este mês será entregue aos nossos cientistas. Vale ressaltar que esta construção se tornou possível graças à extraordinária qualidade científica de nossos pesquisadores que em uma ação conjunta conseguiram vencer vários editais da FINEP para financiamento de obras de infraestrutura. Outras obras marcantes também foram executadas, tais como a reforma do centro cirúrgico do HSP uma doação de cerca de R$ 4.500.000 do Bradesco, a conclusão do prédio do Instituto da Mão (obra que permaneceu interrompida alguns anos por falta de financiamento), a restauração do anfiteatro Leitão da Cunha, doação do Banco Santander de R$ 3.000.000, a reforma do prédio de administração da Reitoria, doação do Banco do Brasil de R$ 5.000.000, a construção da escada de incêndio do Edifício de Ciências Biomédicas, a reforma do INFAR, a restauração dos painéis de afresco dos prédios da Escola Paulista de Enfermagem e Leal do Prado, a reforma do PS do HSP, a reforma da Unidade de Transplantes do HSP, a reforma da casa de coleta do HSP e para não ser mais exaustivo o novo prédio dos ambulatórios. E, por fim, ainda no campo do HSP a recente assinatura do Convênio com o governo do estado de São Paulo no valor de R$ 24.000.000 para financiamento da adequação física das suas enfermarias para torná-las homogêneas obedecendo a um alto padrão de qualidade.

Para poder acompanhar este fantástico crescimento físico, no qual mais do que se triplicou o número de cursos oferecidos pela UNIFESP, também se tornou imperioso ampliar proporcionalmente o número de docentes e servidores técnico-administrativos da instituição, o que de fato ocorreu. Ao longo destes 4 anos foram contratados por meio de concursos públicos 237 novos docentes nos diversos campi, todos eles portadores do título de Doutor. Para o campus de São Paulo foram 115 docentes, sendo que 31 destes concursos foram para Professor Titular, o que proporcionou um salto de 75% no número anteriormente existente que era de 56, mas que decresceu para 44 Professores Titulares, devido a aposentadorias e falecimentos. Desta forma nosso Conselho Universitário experimentou uma notável renovação na sua composição incorporando novos cérebros privilegiados para auxiliar na orientação dos destinos da UNIFESP. Em Santos foram contratados 52 docentes, em Diadema e Guarulhos 40 docentes em cada campus. Vale enfatizar que os 100% dos docentes contratados por concurso para atuar nos campi da expansão são portadores do título de Doutor, o que é algo absolutamente inédito na história da UNIFESP e das instituições universitárias federais do país. Mais ainda, analisando o currículo destes nossos novos colegas, pode-se verificar que a maioria deles realizou curso de pós-doutorado, no país ou no exterior, em reconhecidas e prestigiosas instituições universitárias, sendo possuidores de linhas de pesquisa próprias consolidadas, e que, portanto, de imediato devem começar a produzir conhecimento a partir dos financiamentos obtidos junto às agências de fomento à pesquisa. Neste período foram também contratados 91 professores visitantes e 29 professores substitutos, além de termos conferido o título de professor afiliado a 98 profissionais ligados à nossa instituição. Foram também contratados por concurso nestes 4 últimos anos 1554 servidores técnico-administrativos. Como se pode deparar destes números foi necessária a realização de 1791 concursos públicos, um recorde histórico na universidade federal, o que exigiu uma verdadeira operação marcial, mobilizando toda a estrutura administrativa da universidade em esforço hiper concentrado para a sua efetivação, e que envolveu 504 examinadores para a escolha dos melhores candidatos, posto que a demanda apenas para as 132 vagas docentes da expansão foi de 816 candidatos, portanto mais de 6 candidatos/vaga, todos portadores do título de doutor. Estes números atestam de forma cabal a imensa potencialidade que a universidade pública apresenta para atrair jovens pesquisadores de grande competência, ávidos por ingressar em uma carreira que oferece reais perspectivas de crescimento intelectual, visto que é nas universidades públicas que se dá a possibilidade da geração de conhecimento. Além de muitas outras, esta é mais uma importante razão que faz do processo de expansão das universidades públicas federais uma imperiosa necessidade da nação, posto que a oferta de excelentes profissionais ainda é muito superior à capacidade de absorção por parte das instituições públicas, que são estas as que realmente estão interessadas no campo da pesquisa, do desenvolvimento e da inovação.

O processo de expansão resultou também em um aumento espetacular no número de vagas oferecidas no exame vestibular de ingresso à universidade. A UNIFESP que há muitos anos dispunha da oferta de apenas 300 vagas para seus cursos no campus de São Paulo deu um salto enorme para 1150 vagas, portanto quase 4 vezes mais do que o até então disponível, proporcionando uma maior possibilidade aos jovens brasileiros de cursar uma universidade pública e de qualidade reconhecida. Com esta iniciativa aumentamos também o número de estudantes matriculados, que tradicionalmente era de 1420, passando em 2007 para 2350 estudantes e quando este processo estiver concluído nosso corpo discente será composto por 4860 alunos de graduação, 3,4 vezes maior do que o originalmente disponível. Paralelamente o número de inscritos para o exame vestibular também sofreu um aumento significativo passando de cerca de 13000 para aproximadamente 24000 postulantes. Outro aspecto de importância diz respeito ao número de candidatos por vaga, que mesmo nos novos cursos mostrou-se tão elevada quanto naquelas já bem estabelecidas universidades públicas, o que atesta o acerto da medida tomada e reflete de forma inquestionável o enorme prestígio que representa a marca UNIFESP no meio estudantil universitário. Vale também ressaltar que pela primeira vez passamos a oferecer cursos noturnos, isto ocorreu no campus de Guarulhos e a procura por vagas foi maior do que a dos cursos vespertinos, portanto, passamos a atender uma demanda importante que estava reprimida. A UNIFESP também inovou no campo das ações afirmativas, depois de intensas e frutíferas discussões internas e com experts da sociedade civil aprovou em 2004 para ser implementado em 2005 um incremento de 10% de vagas novas para o sistema de cotas, de tal forma a propor um modelo de inclusão sem afetar as vagas existentes oferecidas pelo sistema universal do vestibular. A primeira experiência trouxe resultados animadores, posto que a avaliação do desempenho dos estudantes demonstrou que não houve diferenças significativas ao longo do ano letivo, entre as notas dos ingressados pelos diferentes sistemas existentes.

Nossas atividades de extensão constituem uma ponte entre a universidade e a sociedade que nos financia, e nesta relação as demandas são infindáveis porque elas se revertem em benefício da própria população. Os projetos sociais, que somam mais de 200, estavam isolados nos diferentes departamentos acadêmicos ou eram de iniciativa pessoal de docentes ou de estudantes, passaram a ser devidamente registrados o que trouxe maior organização e possibilitou um controle mais eficiente da sua avaliação. Dentre os inúmeros projetos coordenados pela extensão destacamos o Lar Escola São Francisco, o programa de atenção à saúde à população do Parque Indígena do Xingu que em 2005 completou 40 anos de atividades ininterruptas, o Projeto Pirado em Santo Amaro, o curso pré-vestibular organizado pelos nossos estudantes que é ministrado totalmente gratuito para alunos da rede pública de ensino, o projeto educacional das populações ribeirinhas em Cananéia, A Universidade Aberta da Terceira Idade, agora com uma filial em Santos implantada em 2006 com enorme sucesso, são alguns entre outros projetos de notória importância. Os cursos credenciados de especialização, que em 2003 somavam 185 programas em 2006 passaram a ser 250 (aumento de 74%) atendendo mais de 6000 alunos regularmente matriculados, estão diretamente ligados à extensão. A Residência Médica também ligada à extensão sofreu um incremento espetacular, atualmente conta com 654 bolsas constituindo-se no maior programa desta natureza do país. Uma grande mudança no exame de ingresso foi a introdução do exame prático que revolucionou o sistema abalando a validade de existência dos malfadados cursinhos e valorizando sobremaneira os estágios práticos do internato. A UNIFESP mantém 62 programas de Residência Médica, sendo 22 de acesso direto, 20 em especialidades que exigem pré-requisito e 20 programas opcionais – áreas de atuação de especialidades reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina.

Produzir mais e melhor ciência, com liberdade de organização e, basicamente, com os mesmos recursos financeiros e humanos disponíveis, este foi o desafio a ser vencido, como de fato o foi na área da pós-graduação e pesquisa. A partir de 2003 uma resolução determinou que para ser autorizada a montagem de uma banca para a defesa da tese, o candidato deveria ter seu trabalho acadêmico submetido a uma publicação em periódico indexado. Esta medida acarretou um crescimento de 50% nas publicações. Estes resultados que representaram uma verdadeira mudança de paradigma mostraram o acerto desta decisão. Atualmente, na área da pós-graduação sentido estrito, mestrado e doutorado são desenvolvidos 43 programas para um total de 1789 alunos de mestrado e 1556 alunos de doutorado matriculados em 2006. Somente naquele ano ocorreu a homologação de 395 teses de mestrado e 278 teses de doutorado. Vale ainda ressaltar que 80% dos nossos alunos de pós-graduação são originários dos mais diversos locais do país e inclusive do exterior. Neste segmento contávamos em 2003 com 493 professores orientadores, os quais compunham 127 grupos de pesquisa cadastrados junto ao CNPq, desenvolvendo 387 linhas de pesquisa. Atualmente contamos com 774 professores orientadores coordenando 432 linhas de pesquisa. Esta transformação dos princípios que norteavam a organização da pesquisa para uma proposta mais desafiadora, além de coadunar-se com a tendência internacional, preparou terreno para a desejada e imediata inserção no sistema, dos docentes nos campi recentemente criados. Hoje o jornal O Estado de São Paulo publica uma matéria com o título “Produção científica cresce mais de 200% nas grandes universidades”, relatando que segundo relatório da CAPES entre as 15 maiores universidades com maior produção científica no momento, 11 cresceram mais de 200% em relação a dez anos atrás. As seis primeiras colocadas – USP, UNICAMP, UFRJ, Unesp, UFURGS, e UFMG – mantêm suas posições no ranking desde 1996, com aumento significativo da sua produção científica. A UNIFESP encontra-se em sétimo lugar (dá para classificar para a copa Sul-Americana, mas ainda não alcançamos a Libertadores da América) tendo publicado em 2006 em revistas indexadas internacionalmente 685 trabalhos com um aumento de 379% na produção científica nestes últimos dez anos. Diz ainda a matéria que a área do conhecimento com maior número de publicações no Brasil hoje é a medicina e que uma das instituições que mais contribuiu para isso foi a UNIFESP. Em outras palavras, quando aplicamos o malfadado fator de correção, do qual já estamos fartos, nós nos colocamos entre os primeiros. Acontece, porém, que o fator de correção não aparece nas estatísticas oficiais, é necessário esmiuçar os dados disponíveis para encontrarmos este aspecto peculiar da nossa área de atuação. O grande desafio está lançado, a partir da nossa expansão nestes próximos dez anos teremos que mudar muito para cima a posição da UNIFESP no ranking da produção científica no país.      

A criação da Fundação de Apoio à UNIFESP em 2005, depois de longas e profundas discussões envolvendo toda nossa comunidade, aprovada pelo Conselho Universitário veio em boa hora para normalizar uma situação considerada irregular pelo Tribunal de Contas União, qual seja a existência dos chamados órgãos suplementares que recebiam repasses financeiros para departamentos e disciplinas através dos centros estudos. Os principais instituidores da FAP são os institutos e centros vinculados à universidade que ao se cotizarem possibilitaram a fundação a comprar um imóvel próprio, e que desde então permitiu seu funcionamento regular atuando dentro da sua proposta como um organismo autônomo e gerador de recursos sob o estrito controle do Conselho Universitário.

Ao longo destes 4 anos tivemos uma grande preocupação em cuidar do ser humano que gravita em torno da nossa instituição como um todo, mas uma atenção mais particular foi dedicada aos nossos servidores e funcionários, sabedores que somos de todas as dificuldades financeiras e sociais que enfrentam no seu dia a dia em virtude da baixíssima remuneração que percebem mensalmente. Para minimizar esta injusta situação socioeconômica foram tomadas inúmeras medidas de valorização daqueles que dão apoio à atividade fim da universidade, para que pudessem evoluir pessoal e profissionalmente. Em 2004 criamos a Comissão de Capacitação do Pessoal Técnico-Administrativo para motivar os servidores e favorecer a ascensão na carreira, o que reverteu em benefício pecuniário, além de tê-los tornado mais bem preparados, através da realização de cursos modulares que foram ministrados em horário de almoço e durante os fins de semana. Este programa, que se encontra em plena atividade, redundou em grande sucesso atraindo de forma maciça nossos servidores e até o presente momento já foram capacitadas 3022 pessoas, o que representa 70,6% da nossa força de trabalho.  As aulas são ministradas por profissionais de nível superior arregimentados por voluntariado no seio da UNIFESP, os quais se dispõem a colaborar espontaneamente em uma extraordinária demonstração de solidariedade e espírito cívico. A todos eles fica aqui registrada nossa enorme gratidão. Outras ações merecem destaque tais como a ampliação da Escola Paulistinha de Educação, o Centro de Educação Informal e Escola de Artes e Ofícios, todas elas ligadas ao Departamento de Assuntos Comunitários e que prestam excelente serviço à nossa comunidade. Em 2003, tomando como base o anteprojeto de gestão foi criado o Programa Pró Qualidade de Vida com objetivo de “cuidar de quem cuida”. Era necessário ter um pensamento sobre educação mais além do que algo apenas atrelado à empregabilidade e à competitividade, haveria que ser valorizado o crescimento do ser humano em sua plenitude. Todos estes objetivos foram perseguidos por meio de cursos, palestras, eventos e campanhas. Mas o conceito de qualidade de vida engloba ainda aspectos relacionados ao lazer, esporte e cultura. Desta forma inúmeras atividades, tais como festas, bazares, exposições de artesanato, apresentações musicais no horário de almoço, ginástica laboral, aulas de yoga, condicionamento físico além de muitas outras atrações, foram promovidas com a correspondente participação ativa dos nossos servidores e funcionários.

Após estes 4 anos enfrentando grandes desafios que acarretaram mudanças essenciais na estrutura da nossa universidade é novamente chegado o momento de revermos o lema positivista da nossa bandeira no seu sentido inverso, é de novo necessário colocarmos ordem no progresso. E para tal a reforma do nosso estatuto se faz urgentemente necessária, há que se definir que modelo de universidade queremos ser. É com uma visão no futuro, até onde a nossa vista e a nossa inteligência consigam alcançar, que nossos pensamentos devem estar dirigidos, totalmente despojados de paixões momentâneas ou de sentimentos voluntariosos por querer fazer prevalecer este ou aquele ponto de vista que se possa impor como a verdade absoluta. Nesta discussão não poderá haver vencedores nem vencidos, somente a UNIFESP deve ser a ganhadora, é para servi-la que aqui dedicamos nosso dia a dia de trabalho. É necessário grandeza de espírito e elevado sentimento de compreensão e respeito pela diversidade de opiniões, que se espera sejam desprovidas de preconceitos e discriminações. Acima de tudo deve ser lembrado que podem existir múltiplos campi, mas há apenas uma UNIFESP, que tem que ser preservada sempre coesa, integrada, intimamente articulada em todas as suas estruturas. Estou seguro de que a sabedoria que até os dias atuais tem nos norteado também estará do nosso lado neste momento crucial que irá ditar o destino da nossa querida UNIFESP.

A consolidação do processo de expansão é outro tema que ocupará uma parcela significativa da nossa agenda, começando desde já, posto que o decreto do governo federal que criou o REUNI, um programa de reestruturação das universidades a partir da expansão já está batendo em nossa porta, e quanto antes iniciarmos a discussão interna, mais proveitoso será o fruto obtido desta proposta que prevê o refinanciamento a maior em até 20% do nosso orçamento de capital e custeio como um todo.

O sucesso da implantação e do princípio filosófico de ocupação do prédio de pesquisa 2 gerou a perspectiva da criação do prédio de pesquisa 3, e esta proposta está em pleno andamento, sendo que acabamos de ter aprovado via FAP o edital de infraestrutura da FINEP no valor de R$ 3.900.000 para início da sua construção. Para a sua conclusão, à semelhança do que ocorreu com o prédio de pesquisa 2 serão necessárias outras investidas que seguramente serão vencedoras.

Muitos outros temas terão ainda que compor nossa agenda de trabalho e sobre os quais teremos que nos debruçar com muita atenção neste próximo quatriênio. Não nos esqueçamos do compromisso de saneamento econômico-financeiro definitivo da SPDM, da implantação de linhas de pesquisa no novo laboratório de Biologia Molecular da COLSAN, continuar trabalhando junto à prefeitura para a implantação do projeto do Bairro Universitário, o salto de emancipação definitiva da FAP, a construção do prédio de salas de aula tão ansiosamente aguardado, e por fim, mas não menos importante, o término das obras de construção dos campi da Baixada Santista, Diadema, Guarulhos, São José dos Campos e da unidade de Santo Amaro.  

Olhando este passado recente com a paixão que me é inerente quando o assunto é UNIFESP, mas também até onde o espírito crítico me permite alcançar, posso dizer sem medo de cometer equívoco maior, foi uma jornada vitoriosa. Entretanto, a vida de esportista me ensinou que as grandes vitórias podem ser traiçoeiras, podem esconder em seu bojo de forma escamoteada, às vezes de maneira quase imperceptível a sensação da invencibilidade, a qual nos leva inexoravelmente à tendência da acomodação e a perda do estímulo para novas conquistas. É, portanto, de fundamental importância que tenhamos sempre claro nas nossas mentes que muitas outras árduas batalhas nos esperam, e que para continuarmos trilhando nossa rota vitoriosa será necessário envidar um esforço redobrado para que possamos consolidar definitivamente as conquistas até agora alcançadas. Não podemos, tampouco, negligenciar a necessidade de atender as inúmeras demandas que ainda não foram devidamente equacionadas.

É com o espírito altamente alerta e disposto a enfrentar novos e excitantes desafios que seguiremos trabalhando pela nossa UNIFESP em benefício da nossa juventude. Carregamos no nosso cerne o sentimento bandeirante do destemor ao desconhecido, do desbravador de novos caminhos além do desejo constante de expandir nossas fronteiras. Crescer com excelência de qualidade é nosso lema maior, a universidade do futuro continua sendo construída, estamos honrando nossos fundadores que tão galhardamente enfrentaram e superaram as imensas barreiras que se lhes antepuseram, mas acreditaram que a luta valia a pena e que a bandeira por eles empunhada continuaria eternamente tremulando imaculada e gloriosa. Como bem disse nosso grande poeta Guilherme de Almeida, em 1936, logo após a fundação da Escola Paulista de Medicina: “aí está germinada a semente, aí está florescido o ideal, aí está frutificado o empreendimento”. Estamos fazendo a nossa parte em manter viva a tradição e o legado que nos foi confiado. Frutificamos e nos multiplicamos. Estamos edificando com amor em uma ação conjunta e solidária uma UNIFESP para todos cada vez maior e ainda melhor, a serviço de São Paulo e para a soberania do Brasil (Figuras 75-76-77-78-79).








Figuras 75-76-77-78-79-80-81: Momentos da cerimônia solene de recondução à reitoria.

terça-feira, 18 de maio de 2021

A Vertiginosa Expansão da UNIFESP: 2003-08 (Parte 3)

 Reitor: Ulysses Fagundes Neto


Discurso de Posse – agosto de 2003


 

Figuras 48-49: Cerimônia oficial da posse de reitor em 2003 em Brasília transmitida pelo Ministro da Educação Cristóvão Buarque.



Figura 50: Registro da transmissão de posse do reitor Hélio Egydio Nogueira juntamente com o ministro da Educação Cristóvão Buarque.

 

Figura 51: Helena Bonciani Nader minha grande amiga e colaboradora estava presente prestigiando minha posse.




Figura 52: Lucila Carneiro Vianna amiga de longas e incansáveis jornadas que viria a ser minha Chefe de gabinete prestigiando minha posse.

 

Figura 53: Meu filho Dr. Ulysses Fagundes meu grande apoio e incondicional companheiro da vida.

Minhas primeiras palavras são destinadas a expressar toda a alegria, a felicidade e a honra por ter sido conduzido ao posto de Reitor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Este é sem qualquer sombra de dúvidas o momento de maior emoção por mim vivenciado, ao longo destes 38 anos apaixonadamente dedicados inicialmente à Escola Paulista de Medicina (EPM) e desde 1994 à UNIFESP, por ter sido alçado ao mais elevado posto da minha carreira profissional. Por outro lado, tenho também a mais plena consciência de que aliada ao júbilo deste momento associa-se uma grande carga de responsabilidades e expectativas que naturalmente esta posição encerra.

Desejo, acima de tudo, deixar aqui consignados meus mais sinceros e efusivos agradecimentos a toda a comunidade que me contemplou com 85% dos votos e aos membros do CONSU que ao me dedicarem 93% dos votos, ratificaram esta confiança em mim depositada para dirigir os destinos da nossa instituição nestes próximos 4 anos. Como é perfeitamente compreensível que para se chegar ao fim desta longa jornada, com o êxito alcançado, foi necessária a colaboração de um sem-número de pessoas, seria justo e esperado que eu fizesse os agradecimentos de praxe. Entretanto, para não cometer erros imperdoáveis de omissão de nomes, decidi eleger conjuntos de pessoas e/ou categorias profissionais, e uma respectiva figura humana representando-as, para render minhas homenagens a todas e a todos, indistintamente. 

Inicialmente minhas reverências são dedicadas à mulher, ou melhor, a todas as mulheres que tiveram e que tem influência direta na minha vida pessoal e profissional. E, neste sentido, permito-me escolher minha mãe, síntese de tudo de bom e maravilhoso que se pode esperar de um ser humano. Nascida Walkyria da Cunha Lobo, ao se casar com meu pai tornou-se Walkyria Lobo Fagundes, esta mulher que me gestou, me trouxe ao mundo e me orientou pela vida afora com seus exemplos vivos de dignidade, decência e dedicação plena em tudo aquilo que faz, simboliza, neste momento, minha homenagem às mulheres. Grande amiga, cúmplice e companheira de todas as horas, ensinou-me a ter garra e determinação para nunca desistir de tentar alcançar um determinado objetivo, perseverança e ousadia para ir sempre mais além do que o aparentemente possível, que exigir é fundamental, mas que perdoar é nobre, a entender que nas derrotas aprendemos a construir as vitórias futuras, e o mais importante de tudo, que amar é essencial e que o afeto é indispensável para o ser humano. Walkyria sempre foi uma mulher muito além do seu tempo, profissional exemplar, trabalhou com dedicação integral servindo ao estado durante 30 anos, e esportista nata, foi uma tenista de excepcional talento, campeoníssima em sua juventude, derrubou tabus, numa época em que à mulher não era bem vista nem a atividade profissional, como tampouco a prática esportiva, venceu com galhardia a todos os preconceitos que se lhe antepuseram, e mesmo nos dias atuais, já octogenária mas ainda muito jovial, continua no mais pleno exercício de suas faculdades mentais e físicas, inclusive aceitando novos desafios em sua faixa etária. Seu ombro acolhedor fez-se sempre sentir em todos os momentos da minha existência, fossem eles de dor, sofrimento e dificuldades, assim como também comigo compartilhou as inúmeras e mais variadas alegrias incontidas. Obrigado minha mãe por ter me posto no mundo e por ter me apontado os melhores caminhos para que eu pudesse trilhá-los com sucesso (Figura 54).

Figura 54: Minha amada mãe Walkyria Lobo Fagundes exemplo de virtude, uma verdadeira heroína que sempre esteve ao meu lado, recebeu o devido reconhecimento em meu discurso de posse.

 

Aos meus colegas docentes meu agradecimento tem como símbolo meu mestre maior, aquele que acreditou em mim quando ainda médico residente desta instituição. Ajudou-me com total convicção, para que eu me tornasse, na ocasião, o primeiro residente a realizar a especialização em outro país.  Assim pude em 1973, durante todo o terceiro ano da residência, fazer meu treinamento em Gastroenterologia Pediátrica, em Buenos Aires com o pioneiro desta especialidade na América latina, Horácio Toccalino. Minhas homenagens se dirigem ao Professor Azarias Andrade de Carvalho, que me adotou como se seu filho fosse desde meu retorno e ao longo de toda minha carreira teve sempre palavras de estímulo e apoio irrestritos. Mantenho ainda hoje nitidamente muito vivo na lembrança o dia que recebi sua visita no hospital que trabalhava na Argentina; a alegria e a emoção de vê-lo chegando me encheram de um orgulho enorme, pois receber a visita do mestre em terras estrangeiras representavam uma honra e uma distinção da mais alta valia. O mesmo também ocorreu quando da minha ida para os Estados Unidos, agora já como docente, Azarias também se fez presente para dar o apoio e o conforto moral para mais uma aventura no exterior. E esta foi a tônica do nosso relacionamento, e vale dizer que isto não foi um privilégio apenas meu. Azarias representa para toda a classe pediátrica a união, o anseio por querer nada menos que o melhor para nossas crianças, a figura do humanista sem concessões de qualquer natureza, o sábio conselheiro, enfim o mestre que todos gostaríamos de ter e ser. Obrigado meu mestre por ter-nos dado sempre o exemplo da retidão de conduta e a sensibilidade de amar a criança de forma absoluta e integral, sem distinção de raça, credo ou origem socioeconômica.

 

Aos meus companheiros servidores e funcionários técnico-administrativos vai aqui minha gratidão pela extraordinária dedicação à nossa instituição e à sociedade, e que mesmo sem receberem o devido e justo reconhecimento salarial por parte dos nossos governantes, aliás constatação que também é válida para nós docentes, continuam sem esmorecer a oferecer o melhor de si em prol da nação, na expectativa de um amanhã mais promissor. Como reconhecimento e respeito pelo trabalho por vocês realizado gostaria de saudá-los na pessoa do sr. Jonas Santana da Silva, técnico em gesso do HSP e técnico de laboratório da UNIFESP, a quem posteriormente terei o prazer de outorgar a medalha da nossa universidade, como gratidão pelos inestimáveis serviços prestados ao próximo, sempre com dedicação extrema. Jonas foi a pessoa que me cuidou, com todo carinho, das incontáveis lesões por mim sofridas, durante os anos de acadêmico, como esportista defendendo a nossa gloriosa Atlética, muitas vezes fazendo verdadeiros milagres para que eu pudesse estar em condições de participar de mais uma árdua batalha. Certa vez, quando já cursava o quinto ano de Medicina, num fim de semana jogando futebol por um outro clube contra a seleção Brasileira que ia disputar as Macabíadas, sofri, num choque com o goleiro adversário, uma dupla luxação esterno-clavicular, o que me causava dor intensa mal podia respirar, e que praticamente me impossibilitava movimentar o tronco e os braços. Mas vivíamos a semana decisiva da Pauli-Med e tínhamos um jogo de futebol cujo resultado seria vital para nossa vitória na competição. Eu era o capitão do time, exercia uma liderança importante no grupo, precisava entrar em campo de qualquer forma, e além do mais havia um outro fator de complicação pois o jogo seria realizado no campo do inimigo, lá na Atlética deles. Corri desesperado ao Jonas praticamente exigindo que ele resolvesse meu problema. Jonas com seu olhar paciente, quase de deboche, me disse: “vou lhe fazer um colete de gesso do pescoço à cintura e se você conseguir se equilibrar vai poder jogar”. Dito e feito, o colete foi providenciado e em mim colocado, fiquei completamente enrijecido, mas pelo menos me vi livre da dor que tanto me incomodava. Apresentei-me para jogar e ninguém podia acreditar que eu teria condições para tal, mas como era veterano e capitão do time o poder da influência falou mais alto e desta forma entrei em campo. Digo entrei em campo, pois isto foi literalmente o que ocorreu, não conseguia me movimentar e tampouco me equilibrar com aquela verdadeira armadura medieval, mas assim permaneci por todo o tempo, até que no fim do jogo que se mantinha num irritante zero a zero, houve uma falta a nosso favor próximo da área do adversário. Com a prepotência de todo bom veterano decidi que bateria a falta, não havia naquele momento a mais mínima possibilidade de me impedirem que isto ocorresse, porque naquela época havia hierarquia e esta era rigidamente respeitada. Bem, assim sucedeu, bati a falta e fiz o gol, ganhamos o jogo e mais uma Pauli-Med, a quarta consecutiva, e tudo por obra e graça da armadura que o Jonas inventou de me colocar. Obrigado amigo Jonas, você é sempre um personagem inseparável das memórias da nossa geração de acadêmicos.   

 

Ao corpo discente também gostaria de deixar aqui consignados meus mais sinceros agradecimentos pela intensa participação em todo o processo eleitoral, trazendo o entusiasmo e a visão crítica essenciais para o engrandecimento das instituições democráticas, além de deixar transparente o desejo e a ânsia de que querem ver um mundo melhor para si e para toda a sociedade dentro em breve. Vocês têm pressa, a fome dos aflitos, isso é altamente salutar e desejável, posto que representam o amanhã e o dia já está raiando. Vocês são também nosso bem maior, por esta razão em seus ombros está depositada toda a expectativa de um porvir melhor, o futuro será mais alvissareiro que o presente, vocês incorporam a figura dos agentes de transformação da sociedade. E como estou me referindo ao futuro, peço permissão aos nossos alunos para homenageá-los na pessoa do meu neto, Pedro Brecheret Fagundes, filho de Ana Paula Brecheret, médica nefrologista pediátrica, graduada nesta instituição e Ulysses Fagundes, médico servidor da UNIFESP e mestre em Pediatria. Eu pedi para que ele viesse vestido com o uniforme da seleção brasileira de futebol, porque este é o símbolo que melhor representa nosso país em qualquer lugar do mundo, é por esta aptidão extraordinária do nosso povo que somos universalmente idolatrados e reverenciados como artistas da bola. Mas como estou falando do amanhã, espero ardentemente que as próximas gerações, a dos nossos estudantes atuais, assim como a do Pedro, tornem nossa terra reconhecida internacionalmente mais do que apenas como a pátria das chuteiras e do carnaval. Desejo que vocês, com o arroubo da juventude, utilizem esta nossa fantástica capacidade de tolerância e miscigenação racial transformando-a numa energia positiva que possibilite gerar um país com igualdade de oportunidades, justa distribuição de renda, sem iniquidades sociais, desprovido de violência, com preservação da nossa maravilhosa natureza e a devida proteção aos habitantes das florestas, aonde se exerça a verdadeira cidadania, enfim uma nação que sirva de exemplo não somente na habilidade da prática do futebol mas acima de tudo na arte do convívio solidário e do bem estar social.

 

Por último, mas não menos importante, meus agradecimentos são dirigidos aos meus amigos, os companheiros de todas as horas, aqueles que apresentam a mão estendida, com total despojamento d’alma, nos momentos mais críticos e difíceis das nossas vidas, que nos fazem ver uma luz de alento e nos mostram um caminho alternativo quando tudo parecem trevas. Estes sentimentos desejo expressar na pessoa do meu grande e fraterno amigo Hélio Egydio Nogueira. Diz o poeta: “amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves dentro do coração, assim falava a canção, amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não, mesmo esquecendo a canção, o que importa é ouvir a voz que vem do coração, pois seja o que vier, venha o que vier, qualquer dia amigo eu volto a te encontrar...”. Agora digo eu pela voz do meu coração e seguramente pela voz de todos os corações da família UNIFESP, receba nosso preito de eterna gratidão por aquilo que você fez e com certeza continuará a fazer de bem, para todos os que te rodeiam. Obrigado amigo Hélio, pela confiança em mim depositada, pelo apoio incondicional ao longo destes quatro anos de íntima e fraterna convivência, pelo carinho demonstrado com toda minha família, principalmente por me estender a mão e me dar o consolo confortador quando tudo parecia irremediável. Enfim, obrigado também por ter, entre tantos outros valorosos colegas que poderiam ter sido escolhidos, apostado na minha pessoa para sucedê-lo.

 

A universidade, desde sua longínqua fundação, como instituição medieval que precede a existência do estado-nação, é europeia por excelência e consubstancia seus valores. Em mais de novecentos anos de vida, desde a fundação da Universidade de Bolonha em 1088, a mais antiga do mundo, a obra universitária constitui o patrimônio mais valioso da humanidade, envolvendo ensino e investigação. Galileu Galilei foi professor em Bolonha e Copérnico desenvolveu suas teorias na Universidade de Salamanca, fundada em 1218. A emergência da economia enquanto disciplina dá-se pela contribuição de filósofos como Adam Smith. Karl Marx era um tecnólogo e estava interessado nas formas pelas quais a humanidade produz e acumula valor: por isto a transição feudalismo-capitalismo era seu tema. Pasteur era químico, e tentava compreender, a princípio, os problemas com a produção de vinho na França. A busca pela compreensão do processo de fermentação o levou a desmontar a teoria da geração espontânea e a entender os princípios da antissepsia. Bem, meus caros amigos, como se percebe por esta brevíssima resenha seriam necessárias muitas e muitas páginas para apenas listar grandes nomes da produção científica e cultural da humanidade, ligados à universidade. Esta tradicionalíssima instituição continua a crescer e a prosperar, muito embora, no decorrer destes nove séculos tivesse vivenciado inúmeras mudanças estruturais para torná-la adaptada às necessidades vigentes das sociedades nos mais diferentes momentos. As universidades dos nossos dias celebram e compartilham suas conquistas com a sociedade como um todo, consideram-se a si mesmas como produtoras do conhecimento utilizável. Duas grandes forças, uma intelectual e outra de natureza política, encontram-se por trás desta transformação dos propósitos e da autoimagem da universidade. A intelectual é decorrente do triunfo das ciências naturais. A ciência explodiu de forma tão esplendorosa no século 20 como em nenhum outro momento da história, suas conquistas têm se mostrado ilimitadas em todas as áreas do saber e facilmente vieram a destronar as ideias de que a universidade deveria apenas cultivar o intelecto. A segunda grande força de transformação da universidade, a política, está diretamente ligada a democracia e a demanda de educação de massa, que na verdade é um dos seus corolários. Portanto, na maior parte do século 20, ciência e democracia foram as principais forças que moldaram a universidade. Mas as grandes transformações não param por aí, novas ideias continuam surgindo a respeito do papel que a universidade deve assumir. Atualmente, já no século 21, acadêmicos e políticos estão tratando de enxergar a universidade não apenas como a criadora de conhecimentos, uma fonte de treinamento de jovens mentes e uma transmissora de cultura. Estão indo além na sua conceituação, visualizam a universidade também como um agente da maior magnitude para o crescimento econômico, a chamada fábrica do conhecimento. A universidade, portanto, constitui-se em uma estrutura ímpar de organização, devido à multiplicidade das suas missões e a ausência de uma única forma de autoridade absoluta. A preservação da diversidade e da autonomia são dois fatores básicos que se projetam para a construção da Universidade do Futuro. O fortalecimento desses aspectos é a garantia de nossa sobrevivência e crescimento. Para que isso ocorra é necessário que o docente seja valorizado, e aqui vale lembrar que a formação de docentes universitários, com a qualidade por nós exigida, é uma longa jornada que demanda esforços de toda uma vida. Concomitantemente nossos parceiros essenciais, os servidores de todos os níveis, devem poder pensar na sua trajetória institucional também em longo prazo a partir de um plano de carreira devidamente definido, bem como a preocupação com sua qualidade de vida deve ser prioritariamente valorizada, além de outras ações específicas que resultem em melhoria da autoestima e revertam em ganhos profissionais reais.  Uma vez preenchidos estes requisitos principais, será possível garantir que os estudantes recebam o melhor da instituição. No mundo moderno o foco deve estar no aluno, e não mais no curso e isso deve significar maior flexibilização e diversificação da formação acadêmica. Uma formação de largo espectro disciplinar é o objetivo a ser alcançado e os programas de iniciação científica devem ser vistos como os núcleos geradores dos futuros recursos humanos da universidade.      

 

A educação é a base e o estofo de uma sociedade que busca a igualdade de oportunidades para seus cidadãos. A educação é a garantia para que o conceito de cidadania exista na prática, e não apenas na lei. A educação é uma das obrigações do Estado. Em todo o mundo desenvolvido, o governo é o grande financiador do ensino e da pesquisa, assumindo os deveres de formar mão de obra especializada, e garantir a qualidade dos seus recursos humanos no campo da competitividade econômica. Educação não pode ser vista como custo, mas sim como investimento da mais alta valia. Mas a educação superior é privilégio de uma minoria, mesmo nos países desenvolvidos. Justamente por isso, em países em desenvolvimento, as instituições de ensino, pesquisa e extensão exercem um papel fundamental para a transformação da realidade do país e para seu desenvolvimento. A capacitação de recursos humanos visa formar lideranças profissionais e intelectuais, essenciais para a definição dos destinos de uma nação. Na universidade apreendem-se conteúdos, aprende-se a respeitar o ambiente político-institucional, as hierarquias e o valor das responsabilidades acadêmicas.   Deixo aqui, portanto, por todos os motivos anteriormente assinalados, meu mais arraigado compromisso em defesa da universidade pública, gratuita e de excelência, voltada para atender as necessidades da sociedade que a financia.

 

A UNIFESP tem feito história na produção do conhecimento e nas relações com a comunidade na qual está inserida. Desenvolve e difunde ciência, forma recursos humanos para as áreas da saúde em nível de excelência e atua como instituição de incomparável importância tanto na promoção quanto na proteção da saúde. Mas para chegar a este estágio atual de elevado prestígio nacional e internacional, muito esforço foi dispendido por inúmeras gerações que nos antecederam, verdadeiros heróis, seres humanos iluminados e visionários que acreditaram fosse possível tornar realidade um sonho tão risonho.  A UNIFESP foi criada em 15 de dezembro de 1994, como resultado da transformação da EPM que foi fundada em 1933. A EPM quando da sua criação não possuía de seu um único metro quadrado de terreno, mas foi grande o ideal, persistente e determinado, dos fundadores. Passados 70 anos, o campus do complexo UNIFESP/SPDM, ocupa uma área de aproximadamente 150.000 metros quadrados distribuídos em 38 quadras, possuindo em torno de 250 imóveis próprios e/ou alugados. Nossa universidade ministra 5 cursos de graduação para 1296 alunos, oferece 37 programas de residência médica envolvendo 455 médicos e 39 enfermeiras na residência de enfermagem. Na área da pós-graduação, sentido amplo, a UNIFESP oferece 142 cursos de especialização tendo 1686 alunos matriculados, enquanto na pós-graduação, sentido estrito, mestrado e doutorado, desenvolve 39 programas para um total de 1974 alunos originários dos mais diversos locais do país e inclusive do exterior. Neste segmento contamos com 493 professores orientadores, os quais compõem 127 grupos de pesquisa cadastrados junto ao CNPq, desenvolvendo 387 linhas de pesquisa. No campo da extensão, o complexo UNIFESP/SPDM encontra-se profundamente inserido no sistema público de saúde, e é nosso desejo não somente manter esta inserção, mas também liderar definitivamente esta ação em benefício da sociedade. Entendemos que desta forma proporcionaremos, entre outros aspectos benéficos, postos de trabalho para um contingente considerável de profissionais da saúde que gravitam em torno da nossa instituição e ao mesmo tempo propiciaremos que a excelência da qualidade destes profissionais seja oferecida àqueles que buscam assistência no Sistema Único de Saúde. Além do Hospital São Paulo nossa instituição administra 5 outros hospitais localizados em diferentes pontos do município de São Paulo, e mesmo em outros municípios do Estado, Centros de Saúde e de Reabilitação Física, assim como mantém convênios com várias outras instituições de saúde no Brasil e no exterior. Como se vê tivemos um crescimento verdadeiramente exponencial ao longo dos tempos, mais intensamente nesta última década, quando nos tornamos uma universidade da saúde. É, portanto, chegado o momento de repensar nossos destinos e consolidar os ganhos conquistados. Parafraseando Augusto Comte, teórico do Positivismo, inspirador da frase “Ordem e Progresso” da bandeira brasileira, eu entendo que estes dizeres deveriam ser invertidos. Progresso que é desordem criativa vem primeiro, assim como tem sido na UNIFESP e agora devemos passar a cuidar da Ordem. Aliás, neste sentido acaba de ser finalizado, pelo nosso Departamento de Engenharia, após longos meses de estudos e discussões, um ambicioso projeto urbanístico de reestruturação imobiliária do nosso campus, o qual busca dar maior racionalização na ocupação dos espaços, com prioridade às edificações verticais, e que será submetido à apreciação do nosso Conselho Universitário, para que uma vez aprovado tenha seu início imediatamente implementado. Ainda no campo da Ordem sem que nos esqueçamos do Progresso, é de fundamental importância reafirmar pelo menos três grandes valores que se revelam como as verdadeiras vocações dos programas desenvolvidos na UNIFESP: produzir conhecimento, ensinar e fortalecer a instituição pública gratuita e de excelência na qualidade. A partir deles é que vamos pôr ordem no progresso e devemos saber que muito mais progresso virá, estabelecendo um círculo virtuoso para o nosso futuro. Com a participação ativa de toda nossa comunidade, valorizando acima de tudo o ser humano, colocando em plena atividade nossa extraordinária força de trabalho, em uma ação conjunta e solidária, construiremos a Universidade do Futuro e consolidando definitivamente o lema “a UNIFESP para todos” (Figuras 55-56-57-58-59-60-61).    








Figuras 55-56-57-58-59-60-61: Fotos da cerimônia solene de posse no anfiteatro Marcos Lindenberg.